NOSSA SENHORA DA PENHA: A FÉ DO POVO CAPIXABA
Vindo de uma família que sempre foi devota de Nossa Senhora da Penha, certa vez quando eu tinha 12 anos de idade, após ouvir um culto em uma igreja protestante me convenci da fala do pastor de que a Virgem Maria era uma ficção. Ao chegar em casa, no mesmo dia, comentei com meu pai, homem austero e muito rigoroso, sobre o que havia ouvido o pastor protestante falar, e com toda calma do mundo ele me chamou para uma conversa reservada e me pediu, resumidamente, para que eu nunca duvidasse de Nossa Senhora da Penha. E, diante da certeza inabalável de sua fé, meu pai naquele momento, renovou a minha, a qual guardarei até o fim dos meus dias.
O Convento da Penha, majestosamente erguido sobre um penhasco em Vila Velha, Espírito Santo, transcende a mera condição de cartão postal religioso. Ele representa um dos mais significativos patrimônios culturais e espirituais do Brasil, um testemunho vivo de séculos de história, devoção e resistência. Sua narrativa começa em 1558, com a chegada do frei franciscano Pedro Palácios ao Espírito Santo, trazendo consigo um valioso quadro de Nossa Senhora das Alegrias, que se tornaria o ponto de partida de uma fé que moldaria uma região inteira.
No alto do morro, dentro da igreja, ladeada de anjos e querubins está a imagem de Nossa Senhora da Penha. É por ela que milhares de fiéis vão ao Convento. Na mesma igreja, na parede lateral, uma outra imagem: um quadro de Nossa Senhora das Alegrias. As duas são até confundidas por alguns fiéis como sendo da mesma santa, mas na verdade, juntas fazem parte da história do Convento, que começou a partir de uma lenda.
O frei Pedro não escolheu um local qualquer para estabelecer sua obra. Encontrou uma gruta ao pé do morro da Penha e ali, em 1562, edificou a primeira capela em honra de São Francisco de Assis. Esse espaço, hoje conhecido como largo do Convento, marca o ponto de origem de uma jornada espiritual que perdura há mais de quatro séculos. Mas o frei franciscano tinha outros planos ainda mais ambiciosos.
Devotíssimo à Virgem Maria, Palácios trouxe de Portugal dois retratos da Santa Virgem que guardava com reverência. No dia 30 de abril de 1570, inaugurou uma segunda capela especificamente para abrigar essas imagens sagradas. O que poderia parecer apenas um ato piedoso revelou-se algo extraordinário, envolto em narrativas que atravessariam séculos e consolidariam a devoção capixaba.
Foi nesse contexto que surgiu a lenda que cimentaria a escolha divina do local. O quadro de Nossa Senhora das Alegrias, que o frei tanto prezava, começou a desaparecer misteriosamente da gruta onde estava guardado, reaparecendo no alto do morro, entre duas palmeiras. Esse fenômeno, repetido por diversas vezes, foi interpretado pelo frei como um sinal inequívoco da vontade divina: a imagem desejava que sua morada fosse construída naquele ponto elevado e sagrado. A lenda, que se tornou parte indissociável da fé local, ditou o destino do Convento.
A lenda ganhou força especialmente porque desafiava toda lógica racional. Uma tela de óleo sobre tela, delicada e valiosa, não poderia simplesmente deslocar-se por conta própria. Contudo, a população capixaba abraçou a narrativa como expressão autêntica da vontade celestial. A própria geografia do lugar contribuiu decisivamente para a reverência: o penhasco elevado, a dificuldade de acesso, o isolamento relativo transformava o topo do morro em um espaço fenomenal que representa a proximidade entre o terreno e o divino.
Posteriormente, foi solicitada uma imagem grande de Nossa Senhora, trazida de Portugal, para ser colocada em uma igreja maior, construída no ponto mais alto do penhasco. Essa imagem, por sua localização privilegiada, recebeu o nome que a consagraria: Nossa Senhora da Penha.
Esse fenômeno, verdadeiro ou lendário, consolidou a convicção de que Nossa Senhora da Penha não era uma mera devoção transferida de Portugal, mas uma manifestação específica da santidade no território capixaba. A imagem escolhera seu lugar, revelando preferência pelo penhasco. Era uma afirmação de identidade religiosa local, distinta da herança ibérica que a originara. O Convento havia sido designado como guardiã de um mistério sagrado, protegendo não apenas uma imagem, mas o próprio lugar eleito pela Virgem Maria.
No Altar Mor da Igreja, remodelado em 1910, há mais de 200 peças de 19 tipos diferentes de mármore que adornam o retábulo e colunas. Possui cuidadosa talha de madeira dourada do escultor italiano Carlo Crepaz, adotando a caligrafia de ornamental do ecletismo pontuada por capitéis, coríntios, festões, guirlandas com elementos vegetalistas, medalhões, anjos e frontão, datando do século XIX.
No centro do retábulo, o nicho de Nossa Senhora, que abriga a Imagem da Virgem da Penha, de origem portuguesa, de 1569. A imagem é ladeada por anjos e querubins e honrada com as imagens dos maiores santos franciscanos: São Francisco de Assis e Santo Antônio de Lisboa e de Pádua.
Enobrecem as paredes da capela as primorosas obras paisagísticas do Convento da Penha, realizadas por Vitor Meireles, encomendadas por Frei João Costa, entregues em 1877, e as obras sacras de Benedicto e Pedrina Calixto, que assinaram as mesmas nos anos de 1926 a 1927.
A relevância histórica e cultural do local não passou despercebida. O Convento da Penha recebeu tombamento do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), reconhecimento que atesta sua importância para o patrimônio nacional e garante sua preservação para futuras gerações. Mas além das paredes históricas e das telas centenárias, o Convento abriga a célebre Sala dos Milagres, testemunho vivo da fé e da resistência de gerações de devotos que buscaram naquele espaço não apenas espiritualidade, mas também consolação, esperança e graças alcançadas ao longo dos séculos.
Ainda hoje, a lenda do desaparecimento e reaparecimento da imagem permanece viva na memória coletiva capixaba. Essa narrativa transformou o Convento em muito mais que um patrimônio arquitetônico, faz dele um símbolo vivo da presença do sagrado na terra capixaba, um lugar onde o extraordinário é possível e o divino se manifesta de formas que transcendem as expectativas humanas.
Essa trajetória de fé, mistério e devoção foi reconhecida pelo Estado do Espírito Santo através da Lei Estadual nº 11.010/2019, que elevou Nossa Senhora da Penha à condição de feriado capixaba, consolidando a importância histórica, religiosa e cultural dessa instituição para toda a sociedade. O Convento da Penha permanece, assim, como testemunho permanente de uma fé que desafia o tempo e a razão, enraizada nas rochas do Espírito Santo.
Texto escrito por João Batista Dallapiccola Sampaio.

Advogado há 39 anos, especializado em direitos sociais e graduado pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), é pai orgulhoso e avô realizado, com uma trajetória marcada pelo compromisso com a justiça e a ética profissional.


